quarta-feira, 9 de abril de 2008

Nosso entrevistado: Orávio de Campos Soares

Wellington Cordeiro
"Acho um absurdo uma entidade como a Zumbi dos Palmares ser comandada por grupos neopentecostais"

Veterano repórter, professor de várias gerações, homem do teatro e da pesquisa em comunicação popular, Orávio de Campos Soares, 69 anos, abriu nesta semana, em artigo publicado na Folha da Manhã, polêmica em relação às indicações do governo interino da Prefeitura de Campos para a Fundação Zumbi dos Palmares, denunciando a escolha de evangélicos que hostilizam as religiões de origem afro.



“Acho um absurdo uma entidade como a Zumbi dos Palmares ser comandada por grupos neopentecostais de natureza fundamentalista. Os pastores satanizam os signos da religiosidade africana e não acredito que possam ter boas intenções ao ocupar um cargo politicamente estratégico”, disse Orávio nesta entrevista ao urgente!, que tem a íntegra reproduzida abaixo.

urgente! - O senhor publicou artigo onde afirmou que não aceitou convite para presidir a Fundação Trianon. Como toda a trajetória no teatro campista que o senhor tem, não seria uma boa contribuição para o município aceitar o convite?

Orávio -
O problema não está no que posso contribuir. Isso eu tenho feito ao longo de minha vida sem ocupar cargos políticos. No fundo há uma incompatibilidade entre o meu ser social e as diferentes esferas do poder. Não me sentiria bem diante de um quadro no qual não acredito. Governo ainda gera desconfiança na comunidade. Há a idéia de que as pessoas entram no poder para levarem vantagens. E, depois, sou, ainda, do tipo: “Se há governo sou contra”.

urgente! - Em outro artigo, mais recente, o senhor condena a escolha de pessoas ligadas à Igreja Universal do Reino de Deus, conhecida pela relação hostil em relação a cultos afrodescendentes, para a gestão da Fundação Zumbi dos Palmares. Esta insatisfação é presente em outros setores do Movimento Negro? Haverá alguma mobilização para tentar reverter estas escolhas?

Orávio -
Acho um absurdo uma entidade como a Zumbi dos Palmares ser comandada por grupos neopentecostais de natureza fundamentalista. Fundada por inspiração de Vovó Teresa, a instituição, com 10 anos de existência, não tem muito que comemorar. Deveria, pelo menos cumprir os estatutos, nos quais constam possibilidades de se restaurar as instâncias políticas, sociais e culturais dos afrodescendentes, nos quais se inclui a sagrada religiosidade dos orixás. Essa forma de colonialismo é insuportável na contemporaneidade. A falta de visão das pessoas é muito pior, ainda. Os pastores satanizam os signos da religiosidade africana e não acredito que possam ter boas intenções ao ocupar um cargo politicamente estratégico. Mas a culpa é do prefeito, o mesmo que, para marcar um ato político, mandar destruir o índio da Estrada do Contorno. Infelizmente, não existe nenhum movimento de preservação dessas culturas. Pelo menos assumindo posições. Muitos aplaudiram o que escrevi, mas no silêncio indevassável de cada um.

urgente! - Embora mantenha distância prudente da política, o senhor tem uma história de militância no PDT, e fez parte do movimento que deu origem à trajetória de Anthony Garotinho em Campos. Agora, passados vinte anos do Movimento Muda Campos, que elegeu Garotinho em 1988, que balanço você faz da influência deste grupo na política local? O período pós-Garotinho fez mais bem ou mais mal à cidade?

Orávio -
Anthony era uma boa liderança e o movimento, em termos políticos, foi a melhor coisa que aconteceu na cidade nos últimos 20 anos. Até porque partiu do romantismo dos artistas de teatro. O problema é que os objetivos, depois da derrota dos coronéis, passaram a ser outros. A liderança construída em torno da ANFAI e da FAMAC acabou olhando outros horizontes políticos. De prefeito Anthony quis o governo do Estado. Só que escolheu mal os seus sucessores. Deveria ter escolhido Fernando Leite e optou por Sérgio Mendes. Isso foi um desastre político e, a partir daí, velhos companheiros de luta começaram a brigar entre si. Depois, outro engano. Anthony entrega o poder nas mãos de Arnaldo Viana, um antigo prócer do PFL, gente de direita. Hoje, do lugar onde me encontro, avalio que a classe média intelectual que fez a revolução política em Campos, por incompetência e falta de visão do futuro, voltou às mãos dos coronéis. Quer dizer: Anthony, no fundo, criou sarnas para se coçar. Acredito que ele deve ter feito sua reflexão para avaliar a própria culpa. Mas só quem vai poder julga-lo é a própria história. Quanto ao PDT, por ser brizolista, ajudei a fundar o partido em Campos e, mesmo não concordando com muitas coisas, nunca mudei de posição. Com isso homenageio Brizola, uma das maiores capacidades políticas da história do Brasil.

urgente! - Como presidente da Associação de Imprensa Campista, uma das associações de imprensa mais antigas do país, o senhor tem um papel de representação institucional da mídia local. Qual a sua avaliação sobre esta imprensa? Vivemos um bom momento no jornalismo campista?

Orávio -
A imprensa campista passa por uma crise. E toda crise pode ser paralisante ou pode nos sinalizar com a possibilidade de mudanças para melhor. Os jornais hoje reproduzem exatamente os problemas políticos e institucionais do município. Cada um assume uma posição achando estar fazendo o melhor jornalismo. Acho que isso é bom e quem me chamou a atenção para este fato foi o Ricardo André. Diz ele que somos felizes por termos três jornais assumindo posições. É só comprar os três e estaremos informados sobre os acontecimentos. Pior é se não tivéssemos todos e cada um caminhando por suas trilhas editoriais. Acho que vamos encontrar o momento de equilíbrio social e político e ai os jornais tendem a ser melhores.

urgente! - E como coordenador do curso de Comunicação Social da Fafic, seu papel está ligado à formação de futuros jornalistas. O que o senhor tem dito aos novos do bando sobre essa nossa profissão? Ainda vale a pena ser jornalista?

Orávio -
A formação do jornalista para o novo jornalismo é muito boa. Não só pelas questões conceituais sobre o verdadeiro papel da comunicação, mas, também, pela possibilidade de fazer com que o aluno se sinta responsável pela transformação da sociedade e pela construção dos novos tempos que o futuro nos reserva. Nosso olhar é crítico e não poderia ser diferente considerando que é de nossa missão formar cidadãos que sejam muito mais críticos e comprometidos com as coisas novas. Acho que vale a pena ser jornalista, sim. É uma grande profissão. Tanto que, por pior que ela possa ser, nenhuma democracia pode prescindir de tê-la como salvaguarda da liberdade de expressão. Até mesmo para se expressar de uma forma ideologicamente incorreta. Pior é uma sociedade sem o jornalismo...

urgente! - Vez por outra o senhor sai pelo interior, com seu grupo de pesquisa, para registrar histórias do povo e contar em longas matérias. Esse modelo é muito próximo do chamado jornalismo literário, que ainda encontra muita resistência na imprensa. Ainda há leitores para este tipo de reportagem?

Orávio -
Penso que sim. Embora exista um rebanho de tolos, como nos explica Chomsky ao falar sobre a recepção da mensagem, podemos imaginar que muitas pessoas de bom gosto lêem as boas reportagens interpretando o trabalho literário de seus autores. Aliás, o jornalismo literário não é coisa nova, porque demanda dos tempos do jornalismo romântico, quando os jornais eram escritos por poetas, escritores, advogados, médicos e outros profissionais liberais. Considerado que esta volta ao arcaico para reconstruir o estilo literário é muito bom como exercício. Hoje os jornais vivem uma crise na mensagem quando mal emprega a língua portuguesa. Parece que a maioria das matérias, publicada nos diferentes jornais, foi escrita pelo mesmo repórter.

urgente! - Também é conhecida a sua sensibilidade religiosa. Como repórter, nestes terreiros da vida, já viu algo tão sobrenatural que, se contasse, os leitores não acreditariam? Qual a experiência mística mais interessante que já viveu?

Orávio -
Penso que não sou muito religioso, não. A religião dos povos de descendências africana me interessa como objeto de pesquisa. Mas, mesmo que não queira, os orixás sabem do trabalho que realizo em função da preservação dessas culturas. Mas, quando estive na Bahia, ao visitar o templo dos Filhos de Gandhi, fui recepcionado religiosamente pelos seus babalorixás. Compreendi que ao nível transcendente as entidades me olham com certo respeito e me admiram pelo que realizo.

urgente! - Depois do Muata Calombo, livro baseado em sua dissertação de mestrado sobre cultura popular da região, há algum outro livro no prelo? Temos novidades a caminho?

Orávio -
Meu livro é um verdadeiro fracasso editorial. Ninguém (ou quase ninguém) leu o meu livro, que fala do folclore, da cultura popular, da ligação atávica do homem com o boi. Viajo pelas Mana-Chicas, pelos Jongos e pelas trilhas que o Coronel Ponciano de Azeredo Furtado percorreu na ficção de José Cândido de Carvalho. O Muata foi mais vendido em Teresina, Natal, São Luiz, Lajeado (Rio Grande do Sul), São Paulo, Campo Grande (Mato Grosso) do que aqui em Campos. Hoje, o livro está na biblioteca da Universidade Nova de Lisboa, levado pelo pesquisador Carlos Nogueira que, apesar de ser português é a maior autoridade sobre literatura de Cordel no Brasil. Quanto a novo livro, sei não. O Celsinho Cordeiro queria que eu editasse as reportagens, de fulcros literários, na Folha da Manhã. Joel Ferreira Melo vem propondo a edição, em um único volume, de todas as minhas 12 peças de teatro, incluindo “O Auto do Lavrador”e o “Favela Ponto 5”. Fiquei desestimulado com o insucesso do Muata Calombo – Consciência e Destruição.

3 comentários:

Monica disse...

Passando pra dizer que o Mestre ficou muito bem na foto...E o sorriso? Há tempos não o via com um semblante tão doce, tão singelo....rsrsrsrs
Adorei a entrevista Vitor!

Edma Nogueira disse...

Mestre Orávio
É sempre muito bom ler você. Mais ainda quando a leitura, saborosa, nos oferece pedaços tão generosos de sua história.
Tanto tempo depois da sala de aula, você continua me dando lições.

Um grande abraço

cris disse...

Voce tá lindo nesta foto. Mas jovem do que nunca. Excelente entrevista.Quero ler seu livro. Onde encontrá-lo?
Um abraço
Cris